Olhares. Era a forma que tinha imposto a seu coração de comunicar todo aquele sentimento proibido, toda a atração contida, todo quase-amor que sentia. Havia dito a si mesmo que não iria mais se enganar, que não mais alimentaria vãs esperanças.
Mas a cada olhar que se encontrava furtivamente, a cada momento em que surpreendia D. lhe observando, seu coração pulava de alegria, seu coração não cabia em si de tanto sentimento. O sorriso escapava-lhe nos lábios e as palavras que o professor proferia se tornavam distantes, enquanto ele fantasiava mil e uma situações.
Mas era à noite que se permitia falar com C. sobre todos aqueles sentimentos, sobre suas fantasias, sobre cada olhar. Ela sabia sobre olhares. Ah, ela sabia o que era ser olhada em meio à multidão. E ela sabia passar despercebida.
Voltando da faculdade, no terminal de ônibus, pensando no resumo crítico e lentamente voltando seus pensamentos para D., eis que como num passe de mágica a mítica figura aparece, como se tivesse se materializado. Todas as situações que havia fantasiado, então, resultavam vãs. A boca secava, as palavras saíam gaguejadas e o assunto já nem lembrava mais.
Sua boca se calava, ainda que seu coração gritasse um amor incontido e seus olhos seguissem a figura que desaparecia na escuridão das ruas.