segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Relicário

E era a hora de renovar, de tocar a vida, de se desfazer.

Ele ia deletar o orkut, apagar fotos, comunidades, tudo. Era hora de seguir em diante e deixar pra trás. Havia sido eterno enquanto durou.

Mas ele sabia o preço de se desfazer de algumas coisas. Anos atrás, em 2003, ele havia jogado fora uma das mais importantes mensagens de carinho de quem fazia ( e talvez ainda faça) seu coração bater mais forte.

Agora, analisando seu orkut, ele analisava depoimentos e corações. Mas, acima de tudo, analisava a si mesmo. E sentia. Sentia saudade, sentia pesar, sentia alegria, sentia-se querido.

Ao ler as mensagens carinhosas, ele havia percebido quantas pessoas havia tocado. Não era algo superficial, mas era uma marca indelével que ele não havia tido a noção do quão profundo havia sido. E o que mais doía era perceber que muitas dessas pessoas queridas haviam ficado pra trás.

A vida tem uma estranha dinâmica. Você faz uma faculdade, arruma um emprego, arruma alguém, paga previdência, compra uma casa, um carro, dois cachorros e um papagaio. Filhos, contas, aposentadoria e fim.

Mas ele não queria aquilo, pelo menos em partes. Ele queria manter contato com as pessoas queridas e assim poder fabricar novas e fresquinhas memórias gostosas de serem lembradas.

Ele queria reconciliação. Já havia perdido tempo demais. (Desculpa...)

As mensagens no orkut haviam sido salvas. Agora, iriam pra caixa de sapato vermelha, guardada no fundo do guarda-roupa. Haviam se tornado parte do seu Relicário.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Praia ou Campo?

O corpo dourado, o tererê, a areia a se espalhar pelos dedos do pé, o sol.

Ele gostava do cheiro de protetor solar, de acordar cedo e comer melhor, das músicas-axé que desde tempos imemoriais lhe animavam o período litorâneo de férias. O cheiro da maresia se mesclava com o cheiro de lembrança boa, de lembrança gostosa de ser lembrada.

Fossem as tatuagens de Henna, a "farofada", a família junta, o deitar na rede e pensar em amores há muito esquecidos, a brisa noturna nos passeios pela orla; fosse o apartamento do tio em Ubatuba, Marbella Flats ou até o apartamento dos amigos, não importava: tudo aquilo era imensamente caro, imensamente precioso, imensamente disfarçado de cotidiano, de banal.

Era a época de gordices gostosas, seguidas pelas eternas promessas de ano-novo-vou-emagrecer, era a época de raspadinhas, de coco gelado, de pastel, cerveja gelada, milho no pote e Jammil e Uma Noites ou, como preferiam as pessoas agora, sertanejo universitário.

Era a época de noites quentes e amores breves, jurados inesquecíveis mas que não resistiam ao recomeço das aulas e do cotidiano na cidade grande. Sim, era, de fato, uma época preciosa.

E quando lhe perguntavam "praia ou campo", ele hesitava. Mas agora ele tinha certeza: definitivamente praia!

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Ser Grande

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

Fernando Pessoa

terça-feira, 19 de abril de 2011

Da efemeridade

Algo que tem me irritado muito - e mais do que isso - me deixado pensativo é a superficialidade das pessoas. Esse reflexão, embora momentaneamente motivada por certos conflitos nas minhas relações pessoais, há tempos tem me incomodado de maneira constante.
Ultimamente muitas pessoas parecem estar imersas em uma superficialidade imensa, como se lhes faltassem parâmetros aos quais pudessem se agarrar.
Uma das maiores dificuldades que as pessoas têm é a de fazer auto-críticas e saber ouvir uma crítica construtiva. Talvez o medo do que vão encontrar se cavarem bem fundo em si mesmas as paralisem de maneira petrificante e muitas prefiram, então, viver na superficialidade das coisas.

Aí vale aquela máxima que diz: "Conhece-te a ti mesmo". Eu diria um pouco mais, com toda a licença poética que não me foi concedida: Conhece-te a ti mesmo e assuma-te a ti mesmo.


Vai pelo caminho da esquerda, boy, que o da direita tem lobo mau e solidão.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

O mundo é um moinho

Ainda é cedo amor
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora da partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar

Preste atenção querida
Embora saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco a tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és

Ouça-me bem amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos
Vai reduzir as ilusões à pó.

Preste atenção querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás a beira do abismo
Abismo que cavaste com teus pés

sexta-feira, 11 de março de 2011

Reencontros [2]

Chuva, chateação, tédio e frustrações. Assim havia sido o carnaval do menino que já não era mais menino. Enterrado voluntariamente no interior de Minas Gerais, o céu dessa vez não estava estrelado e nem se respirava o ar quente misturado com a poeira do chão de terra, mas sim chuva, julgamentos e traição.

Ele queria desesperadamente ir pra Cachoeira de Minas. Mesmo sem um céu salpicado de estrelas, ele queria um novo reencontro que não veio.
No entanto, sem esperar, sem fazer alarde, sem avisar o passado bateu novamente à sua porta. E dessa vez, como havia sido das outras vezes, trouxe consigo toda sorte de emoções, fantasias, pensamentos e esperanças, ainda que estas últimas fossem vãs.

Agora ele sonhava, literalmente. Sentia-se exausto por aquela emoção que o consumia e, ainda, com o mesmo frio na barriga dos anos 2000.