domingo, 28 de novembro de 2010

Desesperança

Minha saudade não tem nome. Tem uns tantos cheiros, alguns rostos, meia dúzia de histórias. Minha saudade é sinestésica, não tem nome mas tem gosto; gosto do sítio em Minas Gerais, gosto de ruas e janelas com cortinas quadriculadas. Minha saudade tem gosto de beijo que nunca aconteceu, tem gosto de música antiga, tem gosto de sertão. Tem gosto, cheiro e voz de madeira ardendo no fogão à lenha.

E hoje em dia é dessa saudade que eu tiro força pra enfrentar a desesperança. Eu tento não viver de saudade, mas a saudade vive de mim. Vive de quem eu fui, molda o que eu sou.

Eu sou a luta contra o ódio, a luta contra o preconceito, a luta contra o estereótipo. Eu sou a luta que busca não desistir em meio a desapontamentos, em meio a opressão. Eu sou a vontade de desistir e a lembrança do porquê não desistir.

Eu tento não viver de saudade, mas a saudade vive de mim.

domingo, 7 de novembro de 2010

Pra registrar

Céu Azul, sem uma nuvem sequer.
Amantes envolvidos em sua hipnose romântica.
Jovens deitados na grama, muito verde.
Jardins e bandeiras hasteadas.
Idosos de fraque, sem cartola.
Música típica, ora melancólica, ora animada, tocando ao fundo.
Uma igreja a reluzir, solitária.

E muita história para contar.


Madrid, 02 de novembro de 2010 13h40

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Recomeços

As paisagens mudavam rapidamente enquanto ele, com a cabeça recostada no vidro da janela, igualmente viajava em seus próprios devaneios. As paisagens que passavam velozes diante de seus olhos, as árvores, o céu, os contrastantes e gigantes cataventos eólicos. (...)

Recomeçava novamente em outro lugar. Lugar longe das pessoas queridas, lugar que nunca visitara antes, lugar com hábitos diferentes, sotaques diferentes, nacionalidades diferentes. E embora recomeçasse ( constante premissa da vida) seu coração, vez ou outra, surpreendia-se sentindo velhos sentimentos, de saudade. Evitava deliberadamente a saudade. Não olhava fotos, evitava perfil de rede social, falava o estritamente necessário e procurava viver no presente. Pois a saudade era como um rio em contenção em uma barragem: se deixasse que fizesse um furinho sequer na parede, em breve a barragem não aguentaria e desfazer-se-ia antes do tempo.

Era preciso ser Amor. Para recomeçar, para aceitar as mudanças, para buscar paciência, para buscar sabedoria nas coisas cotidianas. Ele tentava.


Ele era Amor.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

O outro lado


Sempre me interessou o outro lado da história, o lado de quem perdia. A história que nos é contada é sempre a história do vencedor, do vitorioso, do "correto". E essa história, embora importante, nunca me interessou muito. A versão não dita, o fato não sabido, os segredos, as traições, as lágrimas sempre exerceram sobre mim um fascínio sem igual.

Meu encanto pela História começou cedo, cedinho, lá por volta de 1930 e perdura até hoje.
Mais do que o aspecto político, econômico ou social, a mim me encanta as relações destroçadas, os amores calados, a opressão ideológica, a opressão religiosa, a brutalidade de uma era desgraçada, a desesperança e ainda assim, a sempre-presente força que forçava a todos a seguir em frente...

Encanta-me saber que, mesmo nascidos sob o signo de uma era tão tenebrosa, havia corajosos dispostos a pensar diferente, a ser diferente quando era mais fácil seguir a ideologia, a tendência das massas e o medo quando ser diferente, nessa época, podia significar a morte.

Esse post é dedicado por essas e tantas outras histórias que se perderam no tempo.

Assim como eu tenho certeza que a minha se perderá, um dia.

sábado, 17 de julho de 2010

Tons pastéis

Um dos fenômenos mais místicos e curiosos da minha vida é sentir e lembrar de coisas que eu nunca vivi. Dá um sentimento de uma nostalgia deslocada, com um sabor de saudade. É ler o poema "Profundamente" de Manuel Bandeira, é escutar "Chão de Giz" na voz da Elba e do Zé, é misturar esses sentimentos com a pequena casa em 1993 e sua janela quadriculada marrom, no fim da tarde.
É cheiro de churrasco na casa da avó, é lembrar que minha mãe fazia ovos de chocolate caseiros, é lembrar do ônibus da pré-escola indo me pegar na porta daquela pequena casa. É ver quaisquer filmes da década de 1990, nos quais casais saíam tarde da noite para bailes de gala à moda antiga, com Frank Sinatra tocando ao fundo, e lembrar infantilmente desses momentos e lugares. Momentos que nunca viveu e lugares que nunca foi.
Em todas suas lembranças, reais ou imaginadas, havia o sol a brilhar sem castigar com seu calor, o cheiro de perfumes há muito esquecidos, o tio encerando seu carro na garagem, o frio na barriga, o delicioso frio na barriga.

E não importava se eram lembranças reais ou se era tudo puro fantasia. Existiam, e isso bastava.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Step by step, heart to heart

... toda sua vida o havia conduzido até ali. Cada casa que morou, cada vez que fingiu dormir apenas para os pais não o buscarem na casa da avó, cada escola que freqüentou, cada pessoa que conheceu, cada amor não correspondido, cada hora de estudo, cada briga que teve, cada desafio vencido, cada lágrima derramada, cada lembrança esquecida, tudo aquilo o havia conduzido até ali.
Agora ele vislumbrava andar de bicicleta pelo mesmo caminho que Cristina, Juan António e Maria Elena no filme "Vicky Cristina Barcelona". Buscava pintar a si mesmo como Juan António pintava seus quadros. Nada esperava, mas nada o preenchia. Seria aquilo o verdadeiro desapego? E se fosse, ele queria ser assim daqui pra frente? Não, ele não queria.

Ele queria ser uma folha. E que os ventos da felicidade o levassem pra bem longe dali.

E que o trouxessem o mais rápido possível pra onde estivesse o seu tesouro. Pois lá também estaria seu coração.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Ímpar


Tudo o que se tinha a dizer sobre isso já foi dito. Enough was said about it. E a minha dor é esperar.
"(...) and maybe someday we will find that it wasn't really wasted time."

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Amor é pra sempre.

Certas coisas na vida a gente nunca esquece. O primeiro beijo, o primeiro amor, a primeira decepção, a primeira recuperação em matemática, o primeiro dia na escola, a primeira viagem de avião. A gente nunca esquece daquele brinquedo favorito de quando éramos crianças, do colorido das tardes, dos sorrisos e travessuras.

(...)


Ontem uma pessoa adorável se foi. E eu nunca vou esquecer de 6 cabeças unidas enquanto lágrimas caíam em um gramado iluminado pelo sol matinal de domingo. Nunca.

Amor é pra sempre.

In loving memory of M.E.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Something

Something in the way he moves
Attracts me like no other lover
Something in the way he moves me
I don't wanna leave him now
You know I believe and how



Tem algo me incomodando. Algo tá faltando e eu não sei explicar. Mas é algo importante.
É como se faltasse o vermelho, sabe? Numa caixa de lápis de cor.
É impossível colorir qualquer coisa sem o vermelho. O vermelho é essencial.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Sentimento de Nada

Hoje não vou fazer um post poético, vai ser bem diário de menininha mesmo. Essa semana tem sido uma das mais estranhas ever! Saí do meu conforto em São José e do meu conhecido conflito amoroso pra cair numa realidade completamente diferente aqui em Franca. Primeiro, me irritou MUITO não ter o que tomar café da manhã, uma regalia que sempre tive não importa a hora que eu acordasse. Segundo, nessa minha nova realidade republística/estudantil, me sinto mais desamparado do que nunca. Pessoas estranhas, hábitos estranhos e conversas tão estranhas que prefiro nem comentar aqui. É aquele sentimento de que você não pertence mais a nenhuma realidade - nem a joseense, nem a de 2009, nem essa nova realidade de uma república grande.
Tenho tentado dar uma chance para que o amor entrasse na minha vida, para que a vontade de quebrar tudo e gritar com todos NÃO entre na minha vida e tenho tentado botar um pouco de sentido nessa realidade tão, tão estranha e hostil.
O que eu percebi é que não importa o lugar, a realidade ou as pessoas, os estereótipos estarão lá, e o que mudam são apenas que tipo de estereótipos você vai encontrar. E enquanto isso, "eu vou tentando encontrar um caminho, um lugar, pro que eu sou".

domingo, 17 de janeiro de 2010

5 segundos

Fim de ano. Festas. Correria. Calor. Notas que não saem. CNH que não sai. Contas. Ano-Novo. Promessas. Roupas novas. Academia. Baladas não tão freqüentes (graças a Deus!). Suspiro.

Ele sentia falta, sempre sentiu falta de sua cara metade. Já havia escrito e sentido um número infinito de coisas, tinha passado por algumas experiências, nenhuma satisfatória. Ele gostava do sorriso, das palhaçadas, das falas camaradas. Gostava do jeito todo brincalhão e de como o outro era azarado, sempre se machucando das maneiras mais bobas e engraçadas.

B. afirmava: "(...) ah, mas é sábado a noite e você imagina como deveria ser melhor estar com alguém legal, do que aqui conversando comigo...". Não, não era nada daquilo. Os sábados à noite nunca o incomodaram muito, na verdade. A ausência batia nos momentos mais inesperados e inconvenientes, como na espera do ponto de ônibus, nos almoços familiares na casa da vó ou na saída da missa, quando o domingo ensolarado prometia todo o tempo do mundo em conversas despreocupadas debaixo de uma árvore ou em abraços gostosos debaixo do edredon.

Ao se encontrar com A.H, ele tinha descoberto como ainda não havia desistido do amor. Não procurava uma estabilidade tediosa, bens materiais ou a certeza de um futuro seguro, certo, inevitável, como ela fazia. Ele procurava o amor, e que esse amor viesse cheio de vontade de percorrer o mundo, de entregar-se às incertezas que o futuro trazia. A estabilidade, pensava ele, viria depois.

Seu pneumotórax doía de vez em quando, o ano já vinha com cobranças cada vez maiores e a paciência oscilava entre benevolentemente forte e acidamente pequena. Tudo isso em 5 segundos.

Mas aí, de tanto pensar nesse mundaréu de coisas, ele já não tinha mais certeza de nada.