sábado, 17 de julho de 2010

Tons pastéis

Um dos fenômenos mais místicos e curiosos da minha vida é sentir e lembrar de coisas que eu nunca vivi. Dá um sentimento de uma nostalgia deslocada, com um sabor de saudade. É ler o poema "Profundamente" de Manuel Bandeira, é escutar "Chão de Giz" na voz da Elba e do Zé, é misturar esses sentimentos com a pequena casa em 1993 e sua janela quadriculada marrom, no fim da tarde.
É cheiro de churrasco na casa da avó, é lembrar que minha mãe fazia ovos de chocolate caseiros, é lembrar do ônibus da pré-escola indo me pegar na porta daquela pequena casa. É ver quaisquer filmes da década de 1990, nos quais casais saíam tarde da noite para bailes de gala à moda antiga, com Frank Sinatra tocando ao fundo, e lembrar infantilmente desses momentos e lugares. Momentos que nunca viveu e lugares que nunca foi.
Em todas suas lembranças, reais ou imaginadas, havia o sol a brilhar sem castigar com seu calor, o cheiro de perfumes há muito esquecidos, o tio encerando seu carro na garagem, o frio na barriga, o delicioso frio na barriga.

E não importava se eram lembranças reais ou se era tudo puro fantasia. Existiam, e isso bastava.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Step by step, heart to heart

... toda sua vida o havia conduzido até ali. Cada casa que morou, cada vez que fingiu dormir apenas para os pais não o buscarem na casa da avó, cada escola que freqüentou, cada pessoa que conheceu, cada amor não correspondido, cada hora de estudo, cada briga que teve, cada desafio vencido, cada lágrima derramada, cada lembrança esquecida, tudo aquilo o havia conduzido até ali.
Agora ele vislumbrava andar de bicicleta pelo mesmo caminho que Cristina, Juan António e Maria Elena no filme "Vicky Cristina Barcelona". Buscava pintar a si mesmo como Juan António pintava seus quadros. Nada esperava, mas nada o preenchia. Seria aquilo o verdadeiro desapego? E se fosse, ele queria ser assim daqui pra frente? Não, ele não queria.

Ele queria ser uma folha. E que os ventos da felicidade o levassem pra bem longe dali.

E que o trouxessem o mais rápido possível pra onde estivesse o seu tesouro. Pois lá também estaria seu coração.