Te escrevo daqui, no auge do nosso amor que poderia ter sido, mas não foi. Das coisas que ficaram, tem aqueles dois episódios finais da serie dos anos 90 que passei a gostar por tua causa. Ficaram as idas ao shopping, as compras no supermercado, os bares da rua dos Pinheiros, a certeza do teu abraço pela manhã.
Ficaram as cervejas nos copos americanos, as mensagens cotidianas, teus dedos apertando as cordas da guitarra, o por-do-sol na sacada, os carnavais tresloucados, a promessa de um dia conhecer a Bahia de Todos os Santos pelas tuas lentes. Nem nosso picolé favorito escapou de ficar pra trás.
Sobraram espaços na cama, separaram-se as escovas que nunca estiveram, por verdadeira e espontânea vontade, juntas. Fizeram-se ausentes as mensagens das seis da tarde, perguntando pelo meu paradeiro com o misto de saudade e preocupação de ficar trancado pra fora de casa. Ficaram também as noites e dias de desejo e prazer que ganharam um tom certeiro de intimidade.
Ficaram as fotos e mensagens no celular, que tive tanta dificuldade de arquivar. Ficaram os sorrisos, as palavras sacanas, o medo que foi apaziguando e dando lugar aos abraços. Ficaram as festas juninas de bingo furado, as intimidades, a paciência. Ficaram os versos que eu iria te dedicar, mas que por um descuido nosso, congelaram no tempo que não tivemos. Ficam aqui, ainda que in memoriam:
"Maybe I'll find you, maybe I won't
Maybe I'll try to even if I don't
You are what I never knew I needed
What I never knew I needed
What I never knew I needed
We're almost there"
Acordei assustado, com o gosto salgado das lágrimas que choviam, assim como o dia lá fora, na alma. Chovia também na São Paulo que nos aproximou, como na Zurique que embalava minhas lembranças da tua presença.
Te escrevo daqui, sem arrependimentos e sem saber o que fazer com meu sentimento, mas com a certeza de que a gente segue em frente e que a roda continua a girar.
Um beijo cheio de carinho que sempre te tive,
Feu.