sexta-feira, 31 de março de 2017

500 dias com ele



Há um ditado que diz que tudo o que acontece uma vez, poderá nunca mais acontecer. Mas se acontece duas vezes, certamente acontecerá uma terceira. 

Retornei à casa com fragrância amadeirada para imiscuir meu cheiro em seus lençóis, deitar na sua rede, sentir o frio do seu banheiro, olhar a quadra que eu não tinha reparado, ver suas fotos antigas com um olhar de ternura, desavisado de que seria a terceira e última vez. 

Nossos dias foram marcados pelos passos que demos nas trilhas, pelas praias que visitamos, pelos shows tresloucados em que fomos, pelos inúmeros bares da capital, pelas poucas ondas que pegamos sobre a prancha, pelas nossas compras no mercado, pelos carnavais intensos e atribulados, pelos cortes de cabelo nos sábados de manhã, pelos bons dias e boas noites diários, pelas festas, pelo silêncio que foi ficando cada vez menos desconfortável, pelos cafés de domingo nas ruas ensolaradas do bairro, pelas séries que vimos juntos, pela paciência, pelas trilhas sonoras que embalaram nossos dias e noites de calor e de frio em que seu rosto era sempre a primeira coisa que me acalentava.
Nossos dias também foram marcados pelas viagens frustradas, pelos hospitais inesperados, pelos desencontros e desequilíbrios, por segredos e por um peso que não deveriam existir, pelo tiny dancer that no longer holds me close, pelas declarações de amor que eu deveria ter lhe feito e não fiz, pelas palavras de carinho que nós dois precisávamos, pelas coisas que poderiam ser, mas que por infortúnio do destino, não foram. 

Meus dias agora serão marcados pela sua casa nova que eu não vou chegar a conhecer, pelas viagens que não faremos juntos, pelas músicas novas que vamos ouvir sem compartilhar, notícias que vamos ler sem comentar, ideias que debateremos em outras rodas de amigos, pelas lembranças das ruas que passamos e esquinas em que nos beijamos em sublimes atos de coragem.
Sua ausência será sentida nos interstícios entre uma nota musical e outra das nossas músicas favoritas, na pimenta queimando meus lábios ao comer nosso molho tailandês favorito, no sabor da coca-zero que aprendi a tomar por sua causa, nos restaurantes que amamos, no espaço não preenchido do quadro de cortiça pelas rolhas dos vinhos que não tomamos, na dedicatória do trabalho final, no snowboard que não fizemos, pelo seu perfume que eu talvez sinta na rua e me lembre do calor do seu corpo pressionando o meu num frenesi de desejo e vontade, numa foto perdida que eu possa, por descuido, ver e sentir o meu coração se apertar de saudade. 

Sua ausência é sentida agora com esse nó na garganta, no meio da reunião em que minha cabeça voa longe e vai para perto das nossas lembranças mais doces, nas lágrimas que insisto em não derramar e se acumulam no meu peito, na verborragia sentimental que meus dedos declamam, no desejo de caber no seu abraço, sentir o calor do seu beijo e ver seus olhos lindos outra vez.
Derramo-me aqui por e para você pela última vez. Abro meu coração e lhe ofereço meu amor, meu carinho e meu desejo que outros lhe olhem com os mesmos olhos de admiração e que vejam o homem extraordinário que eu sempre vi em você. 

Abro meu coração e lhe ofereço meu amor e minha admiração, as melhores partes de mim. 

Um beijo cheio do amor que coloriu meus dias,