saiu estressado do trabalho, como estava se tornando (infelizmente) de costume. inerte em seus devaneios de cansaço e raiva, subiu as escadas fétidas da estação e lá estava um homem maltrapilho, sujo. implorava uma moeda aos que desciam a escada, quase tocando-os.
tentou passar ileso, mas foi logo interceptado e o temor se confirmou: o homem, imundo, tocava-lhe as vestimentas e mãos, desesperado. mãos secas, ásperas, sujas e implorava dinheiro.
não soube dizer se eram verdadeiras ou não. desvencilhou-se irritado e subiu bufando as escadas.
sentou-se, falso aristocrata, no banco de plástico do trem, sentindo-se insensível a qualquer coisa, soterrado na sujeira da própria alma, no lamaçal de cansaço e ojeriza que estava se tornando.
olhou para os dedos finos, macios sem calos. insensível e seco era o seu coração burguês.