quinta-feira, 22 de março de 2012

Ainda lembro

Ainda lembro dos teus olhos castanhos. Da tua pele morena, quase dourada e do teu cabelo ora espetado com gel, ora posto de lado. Ainda lembro do passeio na chácara da Maria Helena e daquela vez que compartilhamos a rede, sem trocar uma só palavra. Lembro dos teus telefonemas após as aulas, que sempre começavam com assuntos estritamente escolares e que, também sempre, terminavam em trivialidades cotidianas. Lembro das vezes que eu ia estudar na tua casa, meros pretextos para não fazermos nada, e lembro dos toques. Sutis, indecisos, efêmeros. Lembro do teu perfume e de como o uniforme da escola ficava perfeito em ti. Lembro das vezes em que tu eras insuportável, cheio de manhas e manias. Lembro também das vezes que tu choravas.
Lembro daquela vez que tu tentaste me ensinar alguns golpes de jiu-jitsu. Lembro da tua foto, tu eras bem pequenininho, 5 anos, talvez nem isso, com a garrafa de Brahma na mão. Lembro das vezes que tu ficavas sozinho no pátio da escola e de como meu coração se apertava ao ver a cena.
Lembro ainda, de maneira difusa, quase esquecida, da primeira vez que te vi. Era a própria Maria Helena que havia me trazido até a porta da sala, numa aula de português da Silvana. E lá estavas tu, me olhando com desdém, com desconfiança, arrogante.
Lembro das tardes com Nickelback e Alanis tocando ao fundo. Até da música do Ira!, que tocou naquela vez que ligamos a tevê na MTV, eu lembro.
Nunca vou esquecer aquela última vez em 2002. Se eu pudesse, voltava no tempo, voltava e te dava um abraço de boas férias. Não desceria aquelas escadas novamente. Lembro ainda das conversas no ICQ, que eu lia e relia tantas vezes à noite. Lembro que tu dissestes que para construir uma amizade levava anos, mas que para destruí-la bastava apenas um minuto. (...)
Lembro - agora cada vez menos, confesso - do toque da tua pele na minha. E de como só isso era capaz de faze percorrer uma corrente elétrica no meu corpo, de me tirar o ar, de me deixar bobo, fantasiando à noite sobre os acontecimentos daquela tarde.
Talvez fosse o teu jeito ingênuo e turrão, que me deixava em apuros com meus amigos. Jeito esse que, quando o público ia embora, se transformava em jeito de menino que pedia colo. E eu sempre dava, é claro, à minha maneira.
Ainda hoje, vez ou outra, olho pro teu prédio colorido. Tudo mudou, o tempo passou e é claro que tu não te lembras de nada disso. Tu não terias motivos para se lembrar dessas trivialidades, fatos insignificantes, coisinhas... sei lá. Talvez fosse o destino, a magia que fiz, ou apenas uma brincadeira cruel de Deus, não importa: ainda lembro.

domingo, 11 de março de 2012

Nó na garganta

E vinha o nó na garganta. Vinham os deslizes, as disputas silenciosas. Vinha também a animosidade, sempre hostil, sempre descabida. Vinha tudo isso porque vinha a verdade. Bem ou mal, quase sempre das maneiras mais grosseiras, nuas e cruas, ele trazia a verdade à tona. Verdade essa que incomodava, que revelava vícios e nenhuma virtude, que revelava manhas e mimos que ele já estava cansado de aturar.

Mas vinha o nó na garganta: estava cansado de dizer a verdade. De ser responsabilizado e castigado pela verdade que proferia, dessas últimas vezes, sem querer. Estava fatigué de sempre ser o que mandava a real, sempre causando um rebuliço que não queria causar. Se ofendia, era porque a carapuça servia e ele nada podia fazer a respeito disso.

Ou podia? Ele podia cobrir-se com uma capa de ignorância, de que não ligava, de que aceitava. Mas será que ele podia estar tão vergonhosamente coberto, assim, para sempre?

Ele nunca gostou muito das coisas não ditas. Gostava do pronunciamento claro, sem rédeas nem rodeios. Como dizia Graciliano, a palavra era feita pra dizer, e ele dizia; temia apenas a reação ao que era dito.

Nessas horas gostaria de sumir, viajar, conhecer outras pessoas e fugir, momentaneamente ou pra sempre, da condição inextricável que havia criado e abraçado com todas as suas forças. Era preciso paciência e tato e, nesse momento de indefinição e angústia, ele não tinha nenhum dos dois.