domingo, 4 de outubro de 2015

Hiatos

O dia amanheceu cinza. Estou sozinho em uma sala de apartamento que não tem a minha cara, mas que agora chamo de lar. Não generosidade nem castigo vindo do sol, apenas o cinza.

Os cigarrinhos agora alternam entre os caretas e os bacanas, respeitando os hiatos de vazio existencial entre uma tragada e outra.

É tempo de reconstrução, mas antes é preciso demolir as antigas crenças e sentimentos. É tempo de travessia, mas não há barca. É tempo de amar, mas o coração está fechado e não sabe quando abre novamente.

É tempo de abandonar os velhos amores que embotaram antes do tempo, de guardar as fotografias, de seguir em frente.

É tempo de seguir em frente e sonhar. Com o casamento com alguém que ainda não existe, com a foto dos pequenos no porta retrato na mesa do trabalho, com tudo o que nos é negado diariamente e que temos que batalhar pra conseguir.

Tempo de sonhar com a profundidade de um lago sem fim e com o brilho nos olhos que refletem todas as estrelas do universo.

Ainda falta o amor. E mesmo com o coração distante, seguimos na busca.

terça-feira, 16 de junho de 2015

Rainy Zurich

Te escrevo daqui, no auge do nosso amor que poderia ter sido, mas não foi. Das coisas que ficaram, tem aqueles dois episódios finais da serie dos anos 90 que passei a gostar por tua causa. Ficaram as idas ao shopping, as compras no supermercado, os bares da rua dos Pinheiros, a certeza do teu abraço pela manhã.

Ficaram as cervejas nos copos americanos, as mensagens cotidianas, teus dedos apertando as cordas da guitarra, o por-do-sol na sacada, os carnavais tresloucados, a promessa de um dia conhecer a Bahia de Todos os Santos pelas tuas lentes. Nem nosso picolé favorito escapou de ficar pra trás.

Sobraram espaços na cama, separaram-se as escovas que nunca estiveram, por verdadeira e espontânea vontade, juntas. Fizeram-se ausentes as mensagens das seis da tarde, perguntando pelo meu paradeiro com o misto de saudade e preocupação de ficar trancado pra fora de casa. Ficaram também as noites e dias de desejo e prazer que ganharam um tom certeiro de intimidade.

Ficaram as fotos e mensagens no celular, que tive tanta dificuldade de arquivar. Ficaram os sorrisos, as palavras sacanas, o medo que foi apaziguando e dando lugar aos abraços. Ficaram as festas juninas de bingo furado, as intimidades, a paciência. Ficaram os versos que eu iria te dedicar, mas que por um descuido nosso, congelaram no tempo que não tivemos. Ficam aqui, ainda que in memoriam:

"Maybe I'll find you, maybe I won't
Maybe I'll try to even if I don't
You are what I never knew I needed
What I never knew I needed
What I never knew I needed
We're almost there"


Acordei assustado, com o gosto salgado das lágrimas que choviam, assim como o dia lá fora, na alma. Chovia também na São Paulo que nos aproximou, como na Zurique que embalava minhas lembranças da tua presença.

Te escrevo daqui, sem arrependimentos e sem saber o que fazer com meu sentimento, mas com a certeza de que a gente segue em frente e que a roda continua a girar.

Um beijo cheio de carinho que sempre te tive,

Feu.

terça-feira, 17 de março de 2015

De onde vem a calma?

Fumava seus cigarrinhos nem um pouco caretas na sacada do apartamento bem localizado na zona oeste da cidade. O céu estava de um azul arroxeado, pálido, daqueles céus que acabaram de se recuperar de uma ressaca tempestuosa.

Tudo parecia calmo, frio e até pacífico. Mas era só o mundo exterior com seus aparentes ares de civilidade. No íntimo, cada uma daquelas janelas, fossem sacadas gourmets ou não, escondia pensamentos em fúria, tão tempestuosos quanto a chuva que acabara de cair.

Dentro dele também o mar estava em revolta. Seus sentimentos agitavam-se, entre uma tragada e outra. Depois de meses de hiato, a vida finalmente recomeçava a andar. E vinham as novas cobranças, os documentos pendentes, o novo trajeto até o trabalho, a pesquisa desesperadora de encontrar um apartamento bem localizado a um preço justo (por que tinha voltado mesmo pra essa cidade?), o medo de ser assaltado no caminho, o medo da política que se tem feito nesse país, a guinada à direita, à barbárie homofóbica nos condomínios. A vontade de se exercitar voltava. A indignação com o preço do transporte também. Voltavam os emails com tarefas que, dessa vez, deveriam fazer sentido, sim senhor.

Vinha o sentimento de impotência diante de tanta violência, fosse física, psicológica ou espiritual. Vinha o medo, agora redobrado, de perder quem conquista seu coração a cada dia. O medo também de não ser suficiente, de se arrepender depois. Mas, andando lado a lado com o medo, vinha a esperança de dias cada vez mais ensolarados e felizes, com cheiro de café gostoso logo pela manhã de domingo, ao som de uma vitrola arranhando suas mágoas nos discos.

De onde tirava a serenidade pra enfrentar os medos, as neuroses, as fobias, a família, o preconceito e o mundo? A perguntava ficava sem resposta e logo menos, o cigarro sempre se apagava.

Lá fora, os mesmos aparentes ares de civilidade que do céu, só que mais escuros. Era a noite que vinha chegando.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

A vida é um jogo.

No sonho, K. ressurgiu e disse:

- Quanto mais tempo você ficar nesse sonho, mais você vai conhecer sobre o seu relacionamento. Tem certeza de que quer continuar sonhando?

Não, eu não tinha. Acordei cedo, com o gosto amargo de traição na boca. Você não era você, mas ainda assim me traía. E nem mágica podia adoçar a fantasia, pois eu era perseguido e tinha que correr, correr, correr.


quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

angústia

 Eu sinto como se a minha vida fosse esse cursor que pisca insistentemente nessa tela rascunhada. Assim como esse texto, que rascunhei e apaguei diversas vezes, me perdi um pouco em cada ida e vinda, nas tentativas que resultaram todas em erro.

Essa inquietação é a força estranha, que ao invés de me levar a cantar, tem o poder de me fazer escrever, tarefa esta que antes me era fluida, bonita, poética. Hoje, contudo, parece dura, engessada, como engrenagens pouco lubrificadas de uma engenhoca que funciona porcamente porque parou no tempo. Assim como meu inglês, meus conhecimentos acadêmicos, minha relação com meu pai, minha habilidade para escrever, minha empatia. Tornei-me mudo e surdo à tanta coisa que hoje já não sei por onde recomeçar.
E aí, quando todos os ciclos pareciam se encerrar na minha vida, você apareceu. Apareceu com seu sotaque, com nossos skypes cheio de prints fofos (não me cansava de olhar aquela foto em que o chapéu vermelho ficou no ângulo certinho da sua cabeça), com o bar de esquina favorito, os chás gelados e principalmente, apareceu você e seu carinho.

 E eu, que sempre tive meu pé atrás, comecei a me apaixonar pelo carinho de um homem que dizia ter os dois pés à frente comigo. Mas aí os bons dias e boas noites rotineiros - aqueles mesmos que esboçavam os contornos de algo sólido, começaram a ruir antes da hora, num repente que estou até agora tentando entender. Esse hiato, esse silêncio, esse tesão que já não é mais cultivado, mas silenciado com as pornografias virtuais que ensaiaríamos pessoalmente na cama, tudo isso não é só fruto do seu trabalho extenuante e bem remunerado. Algo parece ter se rompido e fico me perguntando se um band-aid colaria os pedaços de volta até cicatrizarem.

Eu, que achava que ia ser uma pedra sólida na sua vida, virei voo rasante. E a angústia vem de não querer fechar esse ciclo de tanto carinho que começou como um sonho lindo e hoje me traz o velho conhecido nó na garganta.







quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

like tomorrow doesn't exist

E abri meu coração. Expus meus receios e meus limites de uma maneira sincera, direta, doída de tanto sentimento. Minha dor de como me sinto diminuído pelo fato de existir como amante apenas das portas pra dentro, ainda cometendo o mais hediondo dos crimes por querer ser seu.

Coloquei as cartas na mesa, fui honesto e tive razão, como diria Seu Jorge. Mas, também já diz o ditado, que o silêncio é o mais eloqüente dos discursos. E foi o que obtive na nossa era-pra-ser conversa, mas que virou um monólogo sobre essa coisa que nos permeia, mata de alegria e no fim acaba sufocando. Você já deu seu recado.

De bar em bar, de copo em copo vou viver o hoje. Mas o amanhã vem. E vem o depois de amanhã. E você não entende meu silêncio, o abismo entre o meu corpo e o seu, meus lábios que vão em direção contrária aos seus, ainda que procurados veementemente, cheios de sede.

Uma vez escrevi que viver talvez fosse como andar na corda bamba: você aproveita o que é bom até não conseguir resistir mais e pula fora enquanto ainda dá tempo. Talvez gostar de alguém seja a mesma coisa, mas o problema é que essa corda tá muito bamba já nos primeiros passos e a queda não é mais indolor.

Mais uma vez, não fui o turning point de algo novo, ainda não inventado e capaz de arrebatar corações.

Não foi dessa vez, Yollanda.