segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Reminiscências (ou um sonho curto de saudade)

reminiscência
substantivo feminino

  1. imagem lembrada do passado; o que se conserva na memória.

  2. lembrança vaga ou incompleta.
     
    Estávamos na avenida paulista e você, apressado, não me via. Eu, que havia estacionado o carro que eu não tenho em lugar indevido, tive que retirar e lhe perdi de vista. 

    Voltei desolado para a rua e, num virar de esquinas, você me surpreende e, manhoso, me beija com saudade, receio e doçura.

    Afasto-me lentamente de você e olho seu rosto de maneira estudada. Estamos mais velhos, sem dúvida, mas ainda senti o amor de outrora ao mirar esses seus olhos lindos mais uma vez. 
     
    Acordei com o rosto lavado, sem saber se da chuva incessante que caía lá fora,  do salgado do mar das nossas muitas praias ou se das lágrimas que prenunciavam a nossa maneira de dizer adeus.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Born Slippy (1996)

Meus dedos tremem e mal conseguem escrever a verborragia que irrompe no meu peito e às vezes acho que vão me faltar as palavras para descrever o nó sem fim que esses últimos 30 dias foram em minha vida.

Desfiz-me em sorrisos que não eram meus, em festas que não faziam sentido, na fumaça tóxica dos meus muitos cigarros, afoguei-me em incontáveis cervejas e outras drogas na esperança de que, de alguma forma, atenuassem a dor.

Agora, desde que vi seus olhos lindos pela última vez, finalmente deixo as lágrimas correrem face abaixo e permito a entrada da tristeza que represei tão habilmente dentro de mim.

Estou perdido nos acordes e pela batida eletrônica dos anos 90 que dão título a esse texto e que só me fazem lembrar você. Perdido porque, entre uma nota e outra, está escondido, sorrateiro, todo o sentimento que sinto, todo o amor que não foi e a certeza de que eu, sem subterfúgios nem truques, terei que encarar de cabeça erguida a amarga companhia da saudade, mas sem saber que rumo tomar.

Enquanto a música toca, pensei em todos os anos em que não estive com você, mas que me atrevi a imaginar como tinham sido. Imaginei sua inocência quando, na pré-escola, confessou à colega que gostava mais dos meninos do que das meninas, sua timidez e excitação nas baladas da década de 90, a primeira vez que você viu Trainspotting, suas fogueiras no acampamento dos escoteiros e para onde iam seus sonhos e pensamentos enquanto tentava dormir na barraca.

Imaginei como eu gostaria de ter sido seu amigo e companheiro das muitas aventuras que você descreveu e talvez resida aí o maior dos meus devaneios: ousar sonhar um espaço na sua vida que nunca me pertenceu. mas que sempre acalentou minhas fantasias.

Agora, já não no plano dos delírios, voltamos à realidade sabendo que seremos ecos na vida um do outro, ecos esses que o tempo se encarregará de tornar mais desbotados e, com sorte, até indolores. Por isso hoje comecei a árdua tarefa de guardar as fotos na sua pasta para não ter mais que olhar todos os dias, para aceitar que não terei mais seus desejos de boa noite, seus comentários cotidianos, sua voz, seu cheiro e o som da sua risada.

E ao invés de mágoa, meu coração se encheu do mesmo amor pelo menino-homem doce que, sem esforço, me ganhou, soube extrair o melhor de mim e me reinventou todos os dias. Peço então que não acredite em mim quando, por uma auto-defesa mal formulada desse meu coração que mais parece raio e trovão, eu digo que não acredito que foi amor.

Você se diz covarde, mas eu discordo: é preciso coragem para dar os presentes tão lindos que você me deu, como sua doçura, seu cuidado, sua honestidade, seu tempo e seu carinho. E eu não poderia ter tido sorte maior de conhecer alguém que mostrou que o amor é real, possível e se faz perfeito nas imperfeições tão atribuladas das nossas vidas.

Da minha parte guardo ainda algumas lembranças singelas como os ingressos do borboletário que fomos em Belém, o rótulo da cerveja diferente que tomamos, suas fotos 3x4 antigas na carteira. É coisa pouca, mas pra mim eram o relicário precioso desse nosso amor.

E nesse amor que me excede e que me faz fechar os olhos de saudade, só consigo desejar que nenhum medo lhe faça perder essa coisa tão rara que você tem dentro de si: o poder de transformar vidas e construir sonhos lindos, como os que compomos desde aquele nosso primeiro quinze de novembro.

Sigamos amando!

sexta-feira, 31 de março de 2017

500 dias com ele



Há um ditado que diz que tudo o que acontece uma vez, poderá nunca mais acontecer. Mas se acontece duas vezes, certamente acontecerá uma terceira. 

Retornei à casa com fragrância amadeirada para imiscuir meu cheiro em seus lençóis, deitar na sua rede, sentir o frio do seu banheiro, olhar a quadra que eu não tinha reparado, ver suas fotos antigas com um olhar de ternura, desavisado de que seria a terceira e última vez. 

Nossos dias foram marcados pelos passos que demos nas trilhas, pelas praias que visitamos, pelos shows tresloucados em que fomos, pelos inúmeros bares da capital, pelas poucas ondas que pegamos sobre a prancha, pelas nossas compras no mercado, pelos carnavais intensos e atribulados, pelos cortes de cabelo nos sábados de manhã, pelos bons dias e boas noites diários, pelas festas, pelo silêncio que foi ficando cada vez menos desconfortável, pelos cafés de domingo nas ruas ensolaradas do bairro, pelas séries que vimos juntos, pela paciência, pelas trilhas sonoras que embalaram nossos dias e noites de calor e de frio em que seu rosto era sempre a primeira coisa que me acalentava.
Nossos dias também foram marcados pelas viagens frustradas, pelos hospitais inesperados, pelos desencontros e desequilíbrios, por segredos e por um peso que não deveriam existir, pelo tiny dancer that no longer holds me close, pelas declarações de amor que eu deveria ter lhe feito e não fiz, pelas palavras de carinho que nós dois precisávamos, pelas coisas que poderiam ser, mas que por infortúnio do destino, não foram. 

Meus dias agora serão marcados pela sua casa nova que eu não vou chegar a conhecer, pelas viagens que não faremos juntos, pelas músicas novas que vamos ouvir sem compartilhar, notícias que vamos ler sem comentar, ideias que debateremos em outras rodas de amigos, pelas lembranças das ruas que passamos e esquinas em que nos beijamos em sublimes atos de coragem.
Sua ausência será sentida nos interstícios entre uma nota musical e outra das nossas músicas favoritas, na pimenta queimando meus lábios ao comer nosso molho tailandês favorito, no sabor da coca-zero que aprendi a tomar por sua causa, nos restaurantes que amamos, no espaço não preenchido do quadro de cortiça pelas rolhas dos vinhos que não tomamos, na dedicatória do trabalho final, no snowboard que não fizemos, pelo seu perfume que eu talvez sinta na rua e me lembre do calor do seu corpo pressionando o meu num frenesi de desejo e vontade, numa foto perdida que eu possa, por descuido, ver e sentir o meu coração se apertar de saudade. 

Sua ausência é sentida agora com esse nó na garganta, no meio da reunião em que minha cabeça voa longe e vai para perto das nossas lembranças mais doces, nas lágrimas que insisto em não derramar e se acumulam no meu peito, na verborragia sentimental que meus dedos declamam, no desejo de caber no seu abraço, sentir o calor do seu beijo e ver seus olhos lindos outra vez.
Derramo-me aqui por e para você pela última vez. Abro meu coração e lhe ofereço meu amor, meu carinho e meu desejo que outros lhe olhem com os mesmos olhos de admiração e que vejam o homem extraordinário que eu sempre vi em você. 

Abro meu coração e lhe ofereço meu amor e minha admiração, as melhores partes de mim. 

Um beijo cheio do amor que coloriu meus dias,