Tudo parecia calmo, frio e até pacífico. Mas era só o mundo exterior com seus aparentes ares de civilidade. No íntimo, cada uma daquelas janelas, fossem sacadas gourmets ou não, escondia pensamentos em fúria, tão tempestuosos quanto a chuva que acabara de cair.
Dentro dele também o mar estava em revolta. Seus sentimentos agitavam-se, entre uma tragada e outra. Depois de meses de hiato, a vida finalmente recomeçava a andar. E vinham as novas cobranças, os documentos pendentes, o novo trajeto até o trabalho, a pesquisa desesperadora de encontrar um apartamento bem localizado a um preço justo (por que tinha voltado mesmo pra essa cidade?), o medo de ser assaltado no caminho, o medo da política que se tem feito nesse país, a guinada à direita, à barbárie homofóbica nos condomínios. A vontade de se exercitar voltava. A indignação com o preço do transporte também. Voltavam os emails com tarefas que, dessa vez, deveriam fazer sentido, sim senhor.
Vinha o sentimento de impotência diante de tanta violência, fosse física, psicológica ou espiritual. Vinha o medo, agora redobrado, de perder quem conquista seu coração a cada dia. O medo também de não ser suficiente, de se arrepender depois. Mas, andando lado a lado com o medo, vinha a esperança de dias cada vez mais ensolarados e felizes, com cheiro de café gostoso logo pela manhã de domingo, ao som de uma vitrola arranhando suas mágoas nos discos.
De onde tirava a serenidade pra enfrentar os medos, as neuroses, as fobias, a família, o preconceito e o mundo? A perguntava ficava sem resposta e logo menos, o cigarro sempre se apagava.
Lá fora, os mesmos aparentes ares de civilidade que do céu, só que mais escuros. Era a noite que vinha chegando.