"A Isaura caminhou a sentir-se assim, perplexa e vazia, como se não fosse ninguém, apenas a encantada percepção do que há no mundo. Caminhou até ao extremo da praia, onde o areal se reduzia um pouco e as casas humildes dos pescadores chegavam mais às ondas, arregaçadas pelos troncos de árvore. Foi quando se sentou e descalçou os pés. O sol nas suas costas era já uma generosidade grande e não havia mais ninguém. Não havia ninguém. A Isaura disse: eu pensava que o amor era bom.
Tão estranho que depois de tanto tempo e tanta espera pudesse pensar no amor. Amanhecera vazia, sem ninguém dentro de si mesma, e foi como se encheu com a ideia de afinal ser impossível esquecer o amor. Porque o amor era espera e ela, sem mais nada, apenas esperava. A Isaura sabia que amava alguém por vir, amava uma abstração de alguém no futuro. Ela esperava o futuro, e esperar já era um modo de amar. Esperar era amar. Certamente, amava de um modo impossível o futuro. Disse: eu pensava que o amor era bom. E chorou sem qualquer convulsão porque aceitou chorar. Aceitou chorar.
Havia muito que não o fazia. Talvez tivesse percebido que a natureza era, toda ela, uma expressão exuberante e que manifestar os seus sentimentos seria uma participação ínfima nessa honestidade do mundo. Talvez tivesse percebido que usava de honestidade consigo mesma pela primeira vez em muitos anos. Disse: estou sozinha. E repetiu: estou sozinha. Desatou a falar como se não suportasse mais a boca fechada.
Era uma mulher carregada de ausência e silêncios. Para dentro da Isaura era um sem fim e um pouco do que continha lhe servia para a felicidade. Para dentro da Isaura a Isaura caía."
O filho de mil homens, p. 59