domingo, 11 de março de 2012

Nó na garganta

E vinha o nó na garganta. Vinham os deslizes, as disputas silenciosas. Vinha também a animosidade, sempre hostil, sempre descabida. Vinha tudo isso porque vinha a verdade. Bem ou mal, quase sempre das maneiras mais grosseiras, nuas e cruas, ele trazia a verdade à tona. Verdade essa que incomodava, que revelava vícios e nenhuma virtude, que revelava manhas e mimos que ele já estava cansado de aturar.

Mas vinha o nó na garganta: estava cansado de dizer a verdade. De ser responsabilizado e castigado pela verdade que proferia, dessas últimas vezes, sem querer. Estava fatigué de sempre ser o que mandava a real, sempre causando um rebuliço que não queria causar. Se ofendia, era porque a carapuça servia e ele nada podia fazer a respeito disso.

Ou podia? Ele podia cobrir-se com uma capa de ignorância, de que não ligava, de que aceitava. Mas será que ele podia estar tão vergonhosamente coberto, assim, para sempre?

Ele nunca gostou muito das coisas não ditas. Gostava do pronunciamento claro, sem rédeas nem rodeios. Como dizia Graciliano, a palavra era feita pra dizer, e ele dizia; temia apenas a reação ao que era dito.

Nessas horas gostaria de sumir, viajar, conhecer outras pessoas e fugir, momentaneamente ou pra sempre, da condição inextricável que havia criado e abraçado com todas as suas forças. Era preciso paciência e tato e, nesse momento de indefinição e angústia, ele não tinha nenhum dos dois.

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