quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Peito Aberto

"Dizia a C. as palavras indizíveis aos novos amigos, com uma sinceridade resignada e doída. Revelava seus mais profundos sentimentos e confusões com uma objetividade quase matemática, como se só assim lhe pudessem compreender. Procurava ficar só, numa espécie de tortura, para lembrar-se, a cada instante, dos erros que seu coração e hormônios insistiam em cometer.
Pensava em sua família, em seus amigos agora tão distantes. A distância que os separava não era a física, muito embora esta contribuísse; não, era a distância entre mentes e corações que tornava frio e impessoal todos aqueles grandes momentos de amizade, que uma vez haviam sido tão vivos, intensos e sinceros.
Agora, porém, estava sozinho em seu quarto na cidade onde estudava, com seu silêncio cortado apenas pela chuva e pelo barulho dos carros lá fora. Os novos amigos estavam rindo e se divertindo por aí, enquanto ele comemorava sua auto-comiseração, que insistia em lhe fazer companhia, mesmo ele detestando sentir pena de si mesmo. Talvez fosse seu 'inferno astral', aquele mês que precede seu aniversário, em que as bobagens astrológicas afirmavam ser turbulento e cheio de reveses internos e amorosos.
Talvez estivesse fazendo tempestade em copo d'água, mas pensava no que havia realizado em quase duas décadas de existência e não conseguia chegar a uma conclusão sólida. Sabia que havia conquistado muitas coisas, mas sentia-se incompleto, como se sua cama de solteiro fosse demasiadamente grande para ele mesmo. Como se em seu coração houvesse uma demasiada falta de amor por si mesmo e excesso de esperança nos outros. Sabia que o mundo era duro, e que deveria resguardar-se para não sofrer. Mas mantinha vivo em seu coração o destemor do sofrimento e uma incessante busca do Amor."

2 comentários:

Anônimo disse...

Sabe, Fe...
Já te falei mil vezes que vc escreve muito bem, e sempre escreve algo que passa ou já passou comigo...
Ouvi uma frase outro dia que adorei, é do Da Vinci que diz ''Para estar junto não é preciso estar perto, e sim do lado de dentro.'' Não sei porquê, mas essa frase me tocou demais. Bem, talvez eu saiba porquê.. Esse ano foi um ano de mudanças, e meus queridos amigos, aqueles que riamos e brincavamos ao imaginar nossas vidas, não estão tão presentes assim no meu dia-a-dia.. E isso me entristece...Até vc, que apesar de sempre morar longe, tava sempre presente. Não que eu cobre nnguem, até porquê faltou atenção da minha parte, não vou atrás deles.. meu fds ficou reservado para outras coisas.
Em relãção ao amor, posso dizer q tive sorte. Alguém me encontrou qndo eu tava perdida, qndo eu já desacreditava nessas coisas de felizes para sempre e etc.
Só acho erro viver pensando no passado, pois é exatamente oq dizem: quem vive de passado é museu. Existe tantas coisas novas para se viver e sentir que até tenho frio na barriga ao pensar.
E acho que sofrer faz parte, acho que a gnt só da valor ao riso, qndo a gnt sente a dor.
Mas que a dor seja passageira e o riso eterno!
Bjos, Fe! Não sei se realmente disse algo que fizesse algum sentido para vc, mas para que fazer sentido?

Anônimo disse...

Sua realização em dois séculos é o seu passado e terá de leva-lo contigo pra sempre.

O inferno astral vai passar, sempre passa.