Ele vivia sempre nas fronteiras de si mesmo. Nas fronteiras de dizer umas poucas e boas pro pai, sempre tão rígido, retrógrado, cínico. Um péssimo exemplo de pai. Vivia nas fronteiras de arrumar um emprego. Às fronteiras e portas de sair de casa. Vivia nas fronteiras de um novo amor que nunca vinha. De dizer verdades que precisavam ser ditas e que ninguém queria ouvir, por comodismo e preconceito. Vivia às portas de emagrecer e tomar resoluções, que sempre se esmoreciam com o passar dos meses.
(...)
Mas ele também vivia à espera do beijo daqueles lábios bem desenhados, finos e lindos, vermelho-rosáceos. Vivia nos limiares dos toques, dos olhares, das brincadeiras maliciosas. O toque da perna dele na sua ou o jeito como pegava na sua nuca. O modo como ele ficava perigosamente perto e a respiração acelerava, o coração batia descompassado e uma vergonha quase palpável se instalava ali. Vergonha com desejo, algo quase juvenil mesmo. Irritantemente juvenil.
Vivia no limiar de si mesmo. Não no limiar da intensidade, de viver tudo de maneira inconsequente, vívida e louca, mas sim no limiar ser aquele que tinha tudo pra ser, mas não foi.
Era a hora de resoluções. Mas por onde começar?
Nenhum comentário:
Postar um comentário