segunda-feira, 17 de março de 2014

Ensurdecedora

Alta, altíssima. Escandalosamente alta.
Os passos, por vezes silenciosos, nem se faziam notar quando você chegava, diariamente, no horário matinal.

Loud, do inglês.Alta, não em altura, mas alta nos sonhos e aspirações. Vibrava e, aos ouvidos mais treinados, gritava.

A maioria não escutava, é claro. Como poderiam? A risada esganiçada e escandalosa também era espontânea, o que me fazia corar de vergonha e de rir junto. Rir junto era sempre mais gostoso, desses risos de inclinar a cabeça pra trás e cair na gargalhada de uma coisa absolutamente banal.

Sentíamos, nós dois. Sentíamos o mundo, as injustiças, as perdas. Continuávamos. Continuamos. Como metamorfoses ambulantes imutáveis.

Das preciosidades que guardo, tem carinho especial no meu coração as nossas conversas no trem. Agora tudo mudou e não pegamos mais o trem juntos, mas as boas lembranças continuam e me fazem companhia. Como aquela cerveja despretensiosa, sentados na estação de casa, que guardo comigo junto ao peito.

Albert Camus diz  que "não é nenhuma vergonha ser-se feliz; vergonhoso é ser feliz sozinho." Como se, de alguma forma, isso fosse possível. Tanto eu quanto você sabemos que "happiness is only real when shared". Talvez só a gente saiba. Talvez não.


(...)

Agora meu coração está aflito. "Corações ao alto", dizia o padre. Loud, loud and high big ol' hearts.
Nosso Coração, tenho certeza, está em Deus.

Como um sino que mostra a direção, você deu viva-voz ao meu coração.

Camus.
Camis.
Ensurdecedora.

Você.

Um comentário:

Cami. disse...

Ai..o que dizer.
Chocada e emocionada.
Não me contive, não deu para esperar o computador voltar.
Que lindo. Não só porque tinha direção certa, mas também porque está belamente escrito.
You get me. Até quando não consigo explicar exatamente.
Você foi um sopro de alívio nessa imensidão.