sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Galícia Baiana

Demorei pra me dar conta do quanto é difícil escrever sobre o que se tem de afável. Escrever sobre perdas é mais fácil, a desolação nos ajuda a dar voos rasantes em um lago de inspiração para escrever minhas mágoas por aqui.
De maneira cartesiana e até limitada, a forma que encontro pra falar de você é dividindo-me nas dicotomias que tanto discutimos. Ativo ou passivo. Direita ou Esquerda. Sem pelos ou com pelos. Galego ou mouro. Bahia ou São Paulo. Dominar ou ser dominado. Traição ou lealdade.

Começo pelas coisas boas, se é que existem as ruins. A começar pelo caráter, vi que o tal "homem de verdade" existia. Existia pela gentileza, pela paciência, pelos trejeitos de homem no melhor dos sentidos. Existia a carapaça dura, já engessada de tanto ensaiar um personagem para os outros e também existia o menino que pede colo, que cobra mimos e que não se cansa de oferecê-los a mim, desavisado que sou.
Existe também a guitarra empoeirada que me conquista a cada corda dedilhada e a cada acorde metálico. Existe o sotaque cantado e o bom vício nos games, existe o senso de humor, existem também os beijos cheios de vontade que, pasmem, me arrancam suspiros. É o sobrenome bonito, a mistura de Brasil com Egito, só que nesse caso o Egito é uma mistura de Alemanha, com Bahia, com Rio Grande do Sul e com a Galícia imaginária. É também a naturalidade como que encara algumas coisas que ainda me são assombrosas. É o tanto que eu aprendo e que também sei que ensino, em uma troca daqueles que te levam sempre pra frente. É  também a sua vontade de mim e do meu corpo, vontade me conhecer e conhecer meus amigos, são as insinuações de que quer me conhecer de verdade.
Por fim, é o bom dia e o boa noite rotineiros que começam a trazer os ventos de algo concreto, de esboços de uma relação que nem sonhava possível apenas meses atrás.

Mas, como o poema do Ferreira Gullar, "uma parte de mim pesa, pondera. A outra delira".

Passado o delírio, é preciso colocar a cabeça no lugar e ponderar.

E aí vêm os medos e as vertigens. Vem o medo da deslealdade. Veio o medo de que nossas visões políticas sejam tão destoantes que impossibilite a convivência e os planos em conjunto. Vem a possibilidade de um dia você se apaixonar por um ser tão mais feminino, sublime, socialmente aceito, com um ventre tão úmido e fértil que tudo o mais, inclusive eu, se torne mera distração. Vem a grande e esmagadora realidade de que, em breve, eu já tenha deixado essa selva de pedra que me habituei a chamar de lar e voltar para uma realidade interiorana que já me é estranha, sufocante até.

Vem o medo do seu medo, depois superar  meus próprios demônios de ser quem sou e de respirar os ares de liberdade tão duramente conquistados, de ser forçado a viver nas sombras, suspirando meios amores, meias carícias, metades de vida que nunca serão completas e naturais. Vem teu olhar furtivo para os lados enquanto me beija, como se cometêssemos o mais hediondo dos crimes.

Vem o medo de que você decida que já não basto ou pior ainda: que eu decida, como quem gira a maçaneta de uma porta, que pra mim isso já não basta, que eu preciso de mais.

Saber que mistérios ainda vão pintar por aí, antes de mergulhar nessa noite escura, seria mais fácil. Já não sei se conseguiria dizer indolor, mas um curativo bastaria. Ainda não voamos alto o suficiente para que os danos sejam certos e irreversíveis se caíssemos. E sinto que, nessa altura toda, eu voo com as asas de Ícaro, frágeis e sensíveis ao calor e à altura quando deveria voar com as asas de boeing de última geração.

Mas aí, então, os braços se dão em abraços. E as declarações inesperadas de um "que bom que você está aqui", que me pegam desarmado e me atingem em cheio um coração que não sabe se pulsa. Vêm também os copos de bebida, os olhares de desejo trocados em meio às multidões, vem teu corpo procurando o meu, em carícias quase obscenas.

E as minhas certezas, já não tão delineadas, se confundem com a espuma das já inúmeras cervejas que tomamos pelos botecos sempre sujos das ruas mornas (mas nunca mansas) da zona oeste da cidade.


Um comentário:

Cami. disse...

"que bom que você está aqui"