domingo, 3 de janeiro de 2016

Feliz Ano Velho

O cigarro molhava na chuva fria, incessante e impiedosa de primeiro de janeiro. Pedia aos céus que levassem todos os medos, todas as mágoas, todo o sentimento de mais um romance fracassado. O rosto de quem chovia por dentro era iluminado pelos ocasionais clarões dos relâmpagos, poderosos lembretes sobre quem de fato mandava ali. Sentia o concreto molhado abaixo dos pés descalços e pedia que a chuva o levasse de si mesmo.


Não levou.


Voltou para a capital em um frenesi de angústia, desejo de receber aquela mensagem carinhosa, de receber um dengo que não viria. O sexo fácil, farto, luxurioso em centímetros dos mais diversos formatos satisfazia e se esvazia tão logo os segundos de gozo terminavam. Já havia perdido a conta dos corpos que havia abraçado.

Voltou para a casa-que-não-era-lar e decidiu arrumar seu quarto na vã tentativa de botar ordem nos sentimentos que efervesciam dentro de si. (Por que tanta quinquilharia, meu deus?) Aliás, onde estava deus?

Fumou mais um cigarro, que o intoxicava, matava e seduzia a cada momento de solidão.

"Feliz Ano Velho", repetiu para si mesmo. A renovação, sabia, ainda tardaria a chegar.

Um comentário:

Liliane disse...

Feliz tudo-novo-de-novo, ano velho. Eu adoro teu blog!