sábado, 10 de agosto de 2013

Pies Descalzos

Yollanda tinha vontades loucas, às vezes. Tão loucas quanto ela mesma, desvairada com seu batom vermelho escarlate, exagerado e destoante. Sua saia esvoaçante de cigana (já não mais tão dissimulada) coloria as calçadas por onde passava.

A mais louca das vontades, sem sombra de dúvida, era a de ser livre. Livre como o cabelo que insistia em não parar quieto com o vento, livre como todos os caminhos da America Latina, livre como andar de bicicleta no por do sol, sem rumo e feliz.

Livre para amar quem quisesse, quando quisesse, como quisesse. Livre para usar as roupas que quisesse, para sair sem combinar roupa, livre para raspar o cabelo se quisesse. Livre para pensar o que quisesse, acreditar e não acreditar no que bem lhe aprouvesse.

Livre para reinventar-se, para banhar-se nua na água do mar, para ser exatamente quem nasceu pra ser. Livre para ser a mais doce das criaturas e a mais tempestuosa da sua espécie. Doce e amarga, como a própria vida.

Yollanda era amor e aprendia isso em si mesma a cada dia. Mesmo que a balança denunciasse outras inverdades, mesmo que o espelho, vezenquando, insistisse em mostrar olheiras, fios de cabelo brancos e um semblante nem sempre pouco cansado, Yollanda sentia-se satisfeita em trilhar seu próprio caminho através da vida. E isso, sim senhor, deveria bastar.

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