Fiz da sua morada meu santuário secreto de lembranças felizes.
Nesse local, ficam os cheiros de uma madeira que evoca infância, as fotografias de anos anteriores a mim mesmo, os álbuns de família, o silêncio ininterrupto durante a noite, o calor do seu corpo me acalentando os sonhos na cama de solteiro, as bebidas alcoólicas guardadas junto com os remédios, os pratos antigos, desejosos de serem usados mais uma vez, os almoços e jantares que eram temperados com o quase amor que a gente não ousa mencionar.
Ficam pelo assoalho nossos passos aveludados pelas meias, o frio do seu banheiro, seus olhos encontrando os meus na rede trançada perto da janela, o trem pra Lisboa (que, na verdade, nunca conseguimos terminar de assistir), o sótão recheado da mais pura década perdida, o vinho derramado (para o meu desespero e de sua mãe).
(Fazemos uma pausa para o café [seria marroquino? E eis mais uma prova do seu carinho, que se recusa a me servir café comum e da minha falta de memória, cada vez mais frequente] e também para a maravilhosa descoberta, o pão francês com requeijão e figo em calda).
Ficam os brinquedos de criança, distraidamente espalhados pela casa, seus pedidos para que eu trancasse a porta sempre que saímos (imbuídos de um significado que até hoje estou tentando decifrar e que, eu tenho certeza, você nem percebeu), ficam os detalhes de uma vida de menino que ainda parecem resistir, ficam as coisas nem sempre organizadas que asseguram que naquela casa mora gente que traz a vida consigo.
Ficam as músicas novas, no mix das batidas eletrônicas com seu mal disfarçado gosto pelo pop oitentista que, durante muito tempo, me vi gostando sozinho.
Ficam suas mãos quentes e sedentas marcadas pelo meu corpo, como se bebessem do calor dos nossos beijos e das carícias desajeitadamente sinceras e que até hoje me arrepiam a espinha.
Agora me pego sorrindo, sabendo que é porque ficou uma parte de mim naqueles finais de semana, naquela rua que durante décadas foi lembrança só sua. Sorrio como quem sabe, então, que viver talvez seja desperdiçar-se em cada um desses cantos inesperados sem ter a certeza de um dia voltar.
E nesse derramar-se de si por oceanos nunca navegados, tenho certeza que deixei parte do meu coração lá, que só fez se multiplicar desde então.
Sua casa, um palco cheio de lembranças desse meu novo delírio.
Um comentário:
Que denso, intenso. Genial.
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